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sexta-feira, setembro 03, 2010

(estou a reciclar um texto que escrevi há um ano, no âmbito da workshop da Kingpin Books mas nunca tinha publicado)

Era uma vez um cérebro movido a vapor que contava histórias para todas as Idades, bastava colocar uma moeda e ele contava uma história completa. Mesmo os mais pobres tinham acesso às suas narrações fantásticas. A placa de bronze debaixo desta grande invenção do Século XXI dizia "Este é o cérebro de Warren Ellis". Foi para desvendar o mistério deste nome que reuni os dados apresentados neste documento.

Ellis no Século XX e no início do Século XXI

Warren Ellis é um escritor inglês com trabalho feito em diversas áreas (banda desenhada, televisão, romances). Nasceu a 16 de Fevereiro de 1968, em Essex (Reino Unido).Antes de se assumir como escritor, desempenhou diversos outros trabalhos. Começou a sua carreira, como argumentista de BD, aos 21 anos (de acordo com a Wikipedia, essa fonte segura).




No ano de 1990, Ellis começa a sua carreira como escritor na revista "Deadline" com um conto em seis páginas. Pela mesmo altura apresentou pequenos trabalhos e o seu primeiro trabalho com periodicidade é considerado "Lazarus Churchyard". Passados 4 anos ocorreu a primeira colaboração com a Marvel Comics, em "Hellstorm: Prince of Lies" e "Doom 2099". Dos trabalhos iniciais na Marvel é conhecida a sua participação na série "Excalibur". Também escreveu "Worldengine" uma história do Thor em quatro partes.

Depois disso trabalhou para a DC Comics, Caliber Comics e para a Wildstorm (Image). Entre outros títulos escreveu Stormwatch, onde parece que começou a desenvolver a sua "voz" de escritor com o seu desenvolvimento de personagens

Transmetropolitan, uma das suas obras de referência, surgiu em 1997 ainda com o símbolo da Helix, mais tarde passou para a linha Vertigo. Durou 60 números (mais especiais) e até hoje é o seu trabalho de maior duração (terminou em 2002).

Em 1999, publica uma série na Wildstorm ilustrada por John Cassaday, com o nome "Planetary". Tem uma curta passagem na série da DC/Vertigo "Hellblazer", sai da série quando uma das suas histórias não é publicada. Mais ao menos para esta altura regressa à Marvel à frente do "Counter X" (inserido num evento de nome "Revolution". O objectivo era revitalizar aqueles título spin-off dos X-men mas não foi bem sucedido, o autor fica afastado dos comics de super-heróis por uns tempos.

Um dos seus trabalhos relevantes no ano de 2003 é "Global Frequency", uma série de 12 números para a Wildstorm. No ano seguinte, Ellis insiste em voltar ao mercado mainstream com Ultimate Fantastic Four e Iron Man

O seu nome espalha-se em diversos títulos, escreve argumentos para Jack Cross (DC), Nextwave, Thunderbolts, Ultimate Galactus trilogy e New Universe (Marvel Comics). Desenvolve outros projectos fora do universo dos super-heróis para diversas editoras, como Fell (Image), Desolation Jones (Wildstorm) e Black Gas (Avatar Comics).

Contamos que em Novembro (de 2009) vai ser publicado o Panetary #27 para finalmente podermos concluir esta série. Actualmente, produz diversos trabalhos na Avatar e está a assinar os argumentos de algumas animações da Marvel. Escreve regularmente no seu site e no twitter
"Este é o meu segundo texto para este site, e é o segundo em que falo do Warren Ellis. Há boas razões para isso. Para já, ele é um dos melhores escritores de banda desenhada a trabalhar actualmente.Depois, é também um dos mais versáteis." (Luís Alves, "O outro lado dos comics", 2006).
Pelo que li, tenho de concordar com o que o Luís afirmou. Parece-me um homem com imaginação e que a sabe passar para o papel.

Vamos lá ver como o tipo trabalha

Os assuntos que mais encontrei nos seus trabalhos ligam-se a correntes como transumanismo, tecnologia, ambiente steampunk e personagens com personalidade forte (e com hábito de fumar).

Planetary e Fell são os os trabalhos que mais gostei dele (talvez por ainda não ter agarrado no Transmetropolitan).

Planetary acompanha um grupo de "arqueólogos do impossivel" na sua procura pela história secreta do mundo, passa-se no mesmo universo de Authority e é uma monta-russa de boas ideias. "The idea of the series is to create a concise world in which archetypes of superheroes, pulp fiction heroes, science fiction heroes, and characters from just about every possible mass media format, live in one large universe while the Planetary team investigates them and ties together the ends. " A colaboração entre Ellis e Cassaday funciona muito bem, arte e texto funcionam em harmonia.


O que posso dizer sobre Fell? Fell = comic de 24 páginas, 16 páginas coloridas com bd e um conjunto de extras (partes do guião, material de pesquisa e outros extras). Cada número é uma história completa, o autor comentou (no site Newsarama, algures em 2005), que também escreve para pessoas que querem poder ir a uma loja e com pouco dinheiro ler uma história completa. A história centra-se em Richard Fell um homem que misteriosamente foi transferido para o caos urbano que é Snowtown. Estamos perante uma zona sem governação ou ordem de qualquer género (em artigos de sociologia, estes núcleos urbanos são referenciados como "Feral Cities", onde a criminalidade parece ser impune, as pessoas entregam-se a vicios e perversões e as sombras ganham nova vida_).

"In a feral city social services are all but nonexistent, and the vast majority of the city's occupants have no access to even the most basic health or security assistance. There is no social safety net. Human security is for the most part a matter of individual initiative. Yet a feral city does not descend into complete, random chaos. Some elements, be they criminals, armed resistance groups, clans, tribes, or neighborhood associations, exert various degrees of control over portions of the city. Intercity, city-state, and even international commercial transactions occur, but corruption, avarice, and violence are their hallmarks. A feral city experiences massive levels of disease and creates enough pollution to qualify as an international environmental disaster zone. Most feral cities would suffer from massive urban hypertrophy, covering vast expanses of land. The city's structures range from once-great buildings symbolic of state power to the meanest shantytowns and slums. Yet even under these conditions, these cities continue to grow, and the majority of occupants do not voluntarily leave." (Richard Norton, 2003, "Feral cities - The New Strategic Environment")

E as histórias lá se vão construindo à medida que o detective Fell vai tratando dos casos que tem em mãos... Não nos podemos é esquecer que há sempre uma freira com a cara do Richard Nixxon a observar tudo.

"Rich Fell, a smart, easy-going guy fascinated by psychology and tells, is thrown in at the deep end. The place and the people make no sense to him. The only time he has a handle on things is when he's working, applying the one thing he knows to be true wherever he is: everybody's hiding something." (Warren Ellis)

A arte é simples, joga muito com cores e efeitos. Funciona muito bem com o texto. Se quiserem conhecer melhor a arte de Ben Templesmith visitem o site dele http://www.templesmith.com/faze3/

"He was perfect for the sort of thing I wanted to attempt: something accessible, with clear storytelling, but full of the visual experimentation found in the envelope-pushing comics of the 80s, when people like Bill Sienkiewicz and Jon J Muth were on stage. With Ben, I know that if I want to cut out three panels of exposition and just stick a bit of map down with routes and placenames scrawled on it, I know Ben is there. I know that if I need a one-panel flashback of Fell as a kid looking up at his dad, Ben will execute that child's perception. His work is a perfect mix of Sienkiewicz/Storey American experimentation, manga cartooning and European perspective. It's a unique-looking book, and writing for someone like Ben is like having eight different artists -- there's nothing I can write that won't be illustrated eight times as well as I imagined." (Warren Ellis)


Volto a referenciar as palavras do Luís Alves:

"O resultado de tudo isto é uma experiência que, na minha opinião, é simplesmente única. FELL é, neste momento, o comic a ler por quem se interessa pela mecânica e arte dos comics, e acima de tudo, por quem gosta de histórias policiais curtas, densas, inteligentes, absorventes, e claro, baratas."

No trabalho feito na Marvel destaco a carta branca que lhe deram para depravar o mundo dos super-heróis. "Nextwave" é uma obra Ellis e Immonen, uma história que brinca com o Universo de super-heróis e usa explosões e porrada para contar histórias. Diálogos e situações engraçadas, uma arte que narra bem a história e palavras bem associadas. Li apenas os dois primeiros números.

"NEXTWAVE is not about Character Arcs and Learning and Morals and Hugs. It is about cramming an insane movie into 44 pages at a time. It is about the mad things underpinning Marvel Comics, and it is about special effects out of Asian cinema and absurd levels of destruction and a skewed sense of humour and Spectacle and things blowing up and people getting kicked. It is most especially about THINGS BLOWING UP and PEOPLE GETTING KICKED.
It is about humanoid Clone Things made out of engine oil and broccoli being smacked to death by a woman with a guitar. NEXTWAVE. Healing America by beating people up."
(Warren Ellis, no "Director's Cut" do número 1)

O especialista do Ellis do nosso blog já o disse antes:

"Warren Ellis, o escritor desta série, detesta super-heróis. Odeia-os. Despreza-os. Quando, por exigências profissionais, os tem que escrever, arranja sempre maneira de subverter o género, e usar os super-heróis como pretexto para escrever outro tipo de história qualquer. E normalmente, sai-se muito bem. Mas a Marvel contratou-o como escritor exclusivo, e deu-lhe rédea solta." (Luís Alves, No Outro Lado dos Comics)

Em termos de estrutura de guião, Ellis deu bastante espaço de manobra ao Immonen (pela leitura do script para o número 1). Uma frase a descrever cada vinheta e funcionou. Mas será que funciona sempre?

Ellis, em entrevistas, já referiu que adapta os seus argumentos a quem vai desenhar, coloco as minhas dúvidas em relação a isto. Podemos dizer que não é um perfeccionista como o Moore ou o Gaiman, os seus argumentos não são super-detalhados, dá espaço aos artistas. Quando eles são bons temos óptimos resultados, basta ver as suas óptimas colaborações com Cassaday, Templesmith, Immonen ou Hitch.

Acho que as suas histórias de super-heróis mainstream nunca funcionam a 100%, mas os seus trabalhos fora desta temática são originais e variados.

É um autor que divulga os seus trabalhos, através de diversas plataformas por essa internet fora. Participa em redes sociais onde mantém contacto com os seus leitores e divulga pormenores do processo da arte de fazer banda desenhada

Mais "um sacana que me vai fazer gastar dinheiro", é o novo estatuto do Warren Ellis na minha mente. E culpo o Luís por isto...

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saí­do da mente de Jorge às 2:33 p.m.
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